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\chapter{Saúde e autocuidado mental no mundo digital}
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No quesito de saúde mental, a bipolaridade ou pelo seu nome científico,
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Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), é uma das doenças mentais mais comuns e
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responsável por uma gama muito grande de disfunções mentais. De acordo com
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o estudo conduzido por \citet{Merikangas2011}, no âmbito do \textit{World Mental
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Health Survey Initiative} da Organização Mundial da Saúde, com mais de 61 mil
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adultos entrevistados em 11 países, a prevalência ao longo da vida do espectro
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bipolar é de 2,4\% da população mundial, e a prevalência em um período de 12
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meses é de 1,5\%. No contexto do Brasil, segundo a Associação Brasileira de
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Transtorno Bipolar (ABTB), capítulo brasileiro da \textit{International Society for
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Bipolar Disorders} (ISBD) \citep{abtb}, a bipolaridade afeta cerca de
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4\% da população, o que representaria uns 7,6 milhões de
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pessoas. Esse número, embora soe pouco expressivo, levando em consideração o
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contingente de pessoas no país, é preocupante, dado o fato de que a
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bipolaridade é (1) complexa de se detectar e (2) muitas vezes, acaba passando
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despercebida ou enquadrada dentro de um quadro de depressão unipolar
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(depressão).
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Embora o autorregistro seja amplamente recomendado no acompanhamento
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de pessoas com TAB, dado seu potencial de validade clínica e de efeito
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sobre desfechos relevantes~\cite{Faurholt:2016}, sua realização de
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maneira contínua representa um desafio.
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Em muitos casos, o paciente depende da própria memória para reconstruir
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retrospectivamente seu estado emocional, a qualidade do sono,
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acontecimentos cotidianos e outros fatores que podem ter influenciado
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seu humor. Esse processo está sujeito, naturalmente, a vieses de
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recordação e dificulta a identificação de padrões temporais, especialmente
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quando as informações são coletadas apenas durante consultas clínicas.
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Nesse contexto, o \textit{Ecological Momentary Assessment} (EMA)
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consolidou-se como uma importante abordagem metodológica para coleta
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de dados em saúde mental. Diferentemente de avaliações retrospectivas,
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o EMA propõe que informações sejam registradas no ambiente natural do
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indivíduo e próximas ao momento em que as experiências ocorrem, reduzindo
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vieses de memória e permitindo observar a dinâmica dos estados afetivos
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ao longo do tempo \citep{EbnerPriemer2009}. Além de proporcionar maior
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validade ecológica aos dados coletados, essa estratégia tem sido
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empregada em diversas áreas da pesquisa comportamental, incluindo
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transtornos do humor \citep{Collins2003, EbnerPriemer2009}, permitindo
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compreender a relação entre fatores contextuais, eventos cotidianos e
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alterações do humor.
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Nesse contexto, o uso de tecnologias digitais tem se mostrado uma via
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promissora para sistematizar esse tipo de acompanhamento. Pesquisas indicam
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que pessoas com transtornos do espectro bipolar demonstram alta adesão ao
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monitoramento emocional quando este é feito de forma acessível, visual e
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integrada ao seu cotidiano, com estudos reportando taxas de conclusão acima
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de 90\% em protocolos de avaliação momentânea
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via \textit{smartphone} \citep{Ryan2020} \footnote{
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  Vale citar porém, que esse artigo tem limitações de generalização:
54
  os resultados são limitados a um grupo de pessoas que possuiam um maior
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  contato com tecnologia.
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}.
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Entre as formas mais comuns de implementação do EMA encontra-se o
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autorregistro contínuo (\textit{journaling}), no qual o indivíduo
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registra sistematicamente aspectos relevantes do cotidiano, como
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humor, qualidade do sono, eventos significativos, sintomas percebidos
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e outras informações contextuais. Com o acúmulo desses registros,
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torna-se possível identificar padrões de comportamento, reconhecer fatores
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associados às alterações de humor e favorecer o desenvolvimento da
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autoconsciência sobre a própria condição, constituindo uma ferramenta
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complementar ao processo de autoconhecimento e autogestão do
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comportamento \citep{Melton2013}.
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A ampla disseminação dos dispositivos móveis ampliou significativamente
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as possibilidades de utilização dessas estratégias fora do ambiente
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clínico. Smartphones acompanham o indivíduo durante praticamente toda
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sua rotina, permitindo que registros sejam realizados no momento em que
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as experiências ocorrem e reduzindo o esforço necessário para manutenção
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do acompanhamento contínuo. Como consequência, diversas aplicações
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voltadas ao monitoramento da saúde mental passaram a incorporar princípios
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do EMA em seus fluxos de utilização, oferecendo registros estruturados
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e visualizações históricas capazes de auxiliar usuários e profissionais
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de saúde \citep{Faurholt:2016}.
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Apesar da crescente disponibilidade de aplicações voltadas ao acompanhamento
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do humor, estudos recentes que avaliaram especificamente os aplicativos mais
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utilizados por pessoas com TAB para monitoramento de humor e sono apontam
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limitações importantes quanto à integração entre esses domínios, ao controle
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do usuário sobre seus próprios dados e à acessibilidade das políticas de
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privacidade, muitas vezes redigidas em nível de leitura incompatível com o
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público geral \citep{Morton2022}.
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Em paralelo, análises mais amplas do ecossistema de aplicativos de
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saúde mental também identificam riscos recorrentes de privacidade,
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como permissões desnecessárias e vazamento de dados sensíveis \citep{Iwaya:22}.
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Essas limitações evidenciam a necessidade de soluções que conciliem
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boas práticas de engenharia de software, proteção de dados pessoais e
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recursos que apoiem a identificação de padrões emocionais ao longo do tempo.
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Diante desse contexto, este trabalho propõe o desenvolvimento de uma
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aplicação móvel fundamentada nos princípios do
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\textit{Ecological Momentary Assessment} voltada ao acompanhamento
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cotidiano de pessoas com Transtorno Afetivo Bipolar. O sistema busca
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integrar registros estruturados de humor, qualidade do sono, gatilhos
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e ações de cuidado em uma única plataforma, produzindo indicadores que
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auxiliem o usuário na visualização de padrões e no desenvolvimento da
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consciência sobre seu próprio estado afetivo. Ressalta-se que a aplicação
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não possui finalidade diagnóstica nem substitui o acompanhamento realizado
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por profissionais de saúde, sendo concebida como uma ferramenta de apoio
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ao autorregistro e ao autocuidado.