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1
\chapter{Tecnologias}
2

3
Este capítulo apresenta as principais tecnologias empregadas no desenvolvimento
4
do aplicativo, organizadas de acordo com a camada da arquitetura em que atuam:
5
\textit{front-end}, \textit{back-end} e infraestrutura/persistência de dados.
6

7
\section{Front-end}
8

9
O termo \textit{frontend} refere-se à camada de um sistema responsável pela
10
interação direta com o usuário: a interface visual, a lógica de apresentação e
11
o processamento que ocorre no dispositivo do próprio usuário, seja um navegador
12
ou, como no caso do Nexo, um aplicativo móvel, conforme
13
~\citet{sommerville:2010}. É o frontend que renderiza telas, captura entradas
14
do usuário (como toques e formulários) e comunica-se com o \textit{backend}
15
através de requisições de rede, geralmente utilizando APIs. No caso do Nexo,
16
essa camada é implementada com \textit{React Native} e Expo, permitindo que a
17
mesma base de código seja compilada tanto para Android utilizando bibliotecas
18
em \textit{TypeScript}.
19

20
\subsection{React Native}
21

22
React Native é um \textit{framework} de código aberto, mantido pela Meta, que
23
permite o desenvolvimento de aplicativos móveis multiplataforma a partir de
24
uma única base de código escrita em JavaScript/TypeScript, utilizando
25
componentes que são traduzidos para elementos nativos tanto no iOS quanto no
26
Android \citep{reactnative:2026}.
27

28
A escolha do React Native se justifica pelo escopo reduzido da equipe de
29
desenvolvimento (um único desenvolvedor) e facilidade de conhecimento e
30
manutenção, sem trazer, para este projeto, benefícios que justifiquem esse
31
custo adicional. Além disso, o ecossistema maduro do React Native oferece
32
ampla disponibilidade de bibliotecas para funcionalidades já previstas no
33
aplicativo, como notificações locais e gráficos.
34

35
\subsection{Zustand}
36

37
Zustand é uma biblioteca leve de gerenciamento de estado para aplicações
38
React e React Native, que dispensa a estrutura verbosa de \textit{providers}
39
e \textit{reducers} tipicamente associada a bibliotecas como Redux
40
\citep{zustand:2026}.
41

42
Ela foi escolhida para gerenciar o estado efêmero da aplicação (por exemplo,
43
dados de formulários em preenchimento ou estados de navegação temporários)
44
por sua API minimalista e baixo \textit{overhead} de configuração, adequada a um
45
projeto de escopo individual em que a complexidade adicional de soluções
46
mais robustas de gerenciamento de estado não se justifica.
47

48
\section{Back-end}
49

50
Já o termo \textit{backend} refere-se à camada de um sistema que processa a
51
lógica de negócio, gerencia o acesso e a persistência de dados, e expõe essa
52
funcionalidade a clientes (como o frontend) através de uma interface bem
53
definida, tipicamente uma API HTTP \cite{Fowler_2013}. O \textit{backend} é
54
responsável por validar dados recebidos, aplicar regras de negócio, autenticar
55
usuários, e coordenar o acesso ao banco de dados e a outros serviços
56
auxiliares. No caso do Nexo, essa camada é implementada em Node.js com o
57
framework \textit{Express}, seguindo uma arquitetura em camadas (\textit{Route}
58
$\rightarrow$ \textit{Controller} $\rightarrow$ \textit{Service} $\rightarrow$
59
Prisma) que separa as responsabilidades de validação, lógica de negócio e
60
acesso a dados.
61

62
\subsection{Express.js}
63

64
Express.js é um \textit{framework} minimalista para aplicações web em
65
Node.js, amplamente utilizado para a construção de APIs \textit{REST},
66
oferecendo uma camada fina de abstração sobre o roteamento de requisições HTTP e
67
\textit{middlewares} \citep{express:2026}.
68

69
Sua adoção se deve à simplicidade e à flexibilidade não opinativa do
70
\textit{framework}, que permite estruturar a API de acordo com as
71
necessidades específicas do projeto, sem impor convenções rígidas de
72
arquitetura, além de sua ampla documentação e maturidade no ecossistema
73
Node.js.
74

75
\subsection{Zod}
76

77
Zod é uma biblioteca de validação e definição de esquemas de dados para
78
TypeScript, que permite declarar formatos esperados de entrada (como corpos
79
de requisição) e inferir automaticamente os tipos estáticos correspondentes
80
\citep{zod:2026}.
81

82
Zod foi escolhido para validar os dados recebidos pela API antes de seu
83
processamento, garantindo que registros de humor, sono e demais entradas do
84
usuário estejam em conformidade com o formato esperado. A inferência
85
automática de tipos a partir dos esquemas evita a duplicação de definições de
86
tipo entre a camada de validação e o restante do código TypeScript do
87
back-end.
88

89
\begin{lstlisting}[language=typescript, caption={Validação e Inferência usando Zod}, label={lst:zod-inference}]
90
import {
91
  BaseMoodOption,
92
  MoodComponentOption,
93
  IntensityLevel
94
} from '@prisma/client';
95

96
export const MoodComponentSchema = z.object({
97
  component: z.nativeEnum(MoodComponentOption),
98
  intensity: z.nativeEnum(IntensityLevel)
99
});
100

101
export const CreateMoodSchema = z.object({
102
  annotation: z.string().optional(),
103
  moment: z.coerce.date(),
104
  selectedMood: z.nativeEnum(BaseMoodOption),
105
  anxietyLevel: z.number().int().min(0).max(10),
106
  stressLevel: z.number().int().min(0).max(10),
107
  energyLevel: z.number().int().min(0).max(10),
108
  moodComponents: z.array(MoodComponentSchema).min(1)
109
});
110

111
export type CreateMoodInput = z.infer<typeof CreateMoodSchema>;
112
\end{lstlisting}
113

114
\sourcecode{Elaborado pelo autor (2026)}
115

116
Aqui, é possível observar alguns elementos, como a extração direta dos
117
\textit{enums} mapeados pelo Prisma, citado anteriormente nas linhas 1--5. Em
118
seguida, são criados os \textit{schemas} de validação: um valida os componentes
119
de humor de forma aninhada dentro do objeto recebido, e o outro valida os dados
120
do próprio registro --- os níveis aceitos de ansiedade, estresse e energia; a
121
conversão do campo \texttt{moment} para um objeto de data a partir da entrada
122
recebida; a exigência de ao menos um componente de humor selecionado; entre
123
outros. Por fim, esses dados são exportados como um \textit{type} do
124
TypeScript, usado pelo compilador para a verificação estática de tipos no
125
restante do back-end.
126

127
\subsection{Valkey e BullMQ}
128

129
Valkey é um banco de dados em memória, do tipo chave-valor, criado como
130
\textit{fork} de código aberto do Redis, mantido sob a governança da Linux
131
Foundation \citep{valkey:2026}. BullMQ é uma biblioteca para gerenciamento de
132
filas de tarefas em Node.js, construída sobre bancos de dados compatíveis com
133
o protocolo Redis \citep{bullmq:2026}.
134

135
A combinação das duas ferramentas foi adotada para o processamento paralelo
136
e assíncrono de tarefas que não precisam bloquear a resposta imediata da API,
137
como o disparo de notificações programadas e o processamento de indicadores
138
a partir do histórico de registros do usuário. A escolha do Valkey em
139
específico, e não do Redis diretamente, se deve à mudança de licenciamento do
140
Redis em 2024, que passou a restringir certos usos comerciais; o Valkey
141
mantém compatibilidade total de protocolo, permanecendo sob licença
142
permissiva de código aberto.
143

144
\section{Infraestrutura e Persistência de Dados}
145

146
A camada de \textit{infraestrutura e persistência} de um sistema abrange os
147
componentes responsáveis por armazenar e gerenciar os dados de forma durável,
148
bem como os serviços auxiliares que sustentam o funcionamento da aplicação em
149
produção \cite{Fowler_2013}. O elemento central dessa camada costuma ser o
150
sistema de gerenciamento de banco de dados (SGBD), responsável por garantir a
151
integridade, consistência e durabilidade dos dados armazenados. No caso do
152
Nexo, essa função é cumprida pelo PostgreSQL, um SGBD relacional, acessado
153
através do Prisma, um \textit{Object-Relational Mapper} (ORM) que traduz
154
operações do banco de dados em chamadas de código TypeScript, eliminando a
155
necessidade de escrever consultas SQL manualmente na maior parte dos casos.
156

157
Complementarmente, o Nexo utiliza o Valkey como armazenamento em memória de
158
alta velocidade, empregado tanto para cache quanto como \textit{broker} de
159
mensagens para o sistema de filas, cujo suas filas são gerenciadas com a
160
biblioteca BullMQ para lidar com os \textit{background jobs} enviados. Os
161
mesmos são responsáveis por processar os indicadores semanais e diários
162
descritos nos capítulos anteriores. Além disso, o Nexo mantém uma pilha de
163
observabilidade dedicada à coleta e à consulta dos \textit{logs} de seus
164
contêineres, descrita a seguir, que complementa a persistência dos dados de
165
domínio.
166

167
\subsection{PostgreSQL}
168

169
PostgreSQL é um sistema gerenciador de banco de dados relacional, de código
170
aberto, reconhecido por sua conformidade com o padrão SQL, robustez e suporte
171
a tipos de dados avançados \citep{postgresql:2026}.
172

173
Sua escolha se justifica pela natureza estruturada e relacional dos dados do
174
domínio da aplicação (registros de humor associados a usuários, horários,
175
gatilhos e categorias), que se beneficia das garantias de integridade
176
referencial e das transações ACID oferecidas por um banco relacional
177
maduro, em detrimento de soluções não relacionais.
178

179
\subsection{Prisma}
180

181
Prisma é um \textit{Object-Relational Mapper} (ORM) para o ecossistema
182
Node.js/TypeScript, que gera automaticamente um cliente de acesso ao banco de
183
dados tipado a partir de um esquema declarativo, além de oferecer um sistema
184
de migrações versionadas \citep{prisma:2026}.
185

186
O Prisma foi escolhido por permitir a manutenção do esquema do banco de dados
187
de forma versionada e sincronizada com o código da aplicação, reduzindo a
188
chance de divergência entre a estrutura do banco e as entidades manipuladas
189
pelo back-end, além de prover checagem de tipos em tempo de compilação para
190
as consultas realizadas.
191

192
\subsection{VictoriaLogs e Vector}
193

194
Observabilidade, no contexto de sistemas distribuídos, designa a capacidade de
195
compreender o estado interno de uma aplicação a partir dos sinais que ela emite
196
--- em especial \textit{logs}, métricas e rastros ---, o que permite investigar
197
problemas sem conhecer previamente sua causa \citep{opentelemetry:2026}. Entre
198
esses sinais, os \textit{logs} são o mais direto: registros datados de eventos
199
emitidos pelos serviços. No Nexo, eles cobrem tanto as requisições HTTP
200
recebidas pela API quanto as tarefas processadas pelos \textit{workers} de
201
segundo plano. A pilha descrita a seguir é dedicada a coletá-los, armazená-los
202
e torná-los consultáveis.
203

204
VictoriaLogs é um sistema de armazenamento e consulta de \textit{logs}
205
desenvolvido pela VictoriaMetrics, projetado para operar como um único binário,
206
sem dependências externas, e com consumo reduzido de memória e de disco
207
\citep{victorialogs:2026}. Vector é um agente de coleta e roteamento de
208
observabilidade, também distribuído como um único binário, capaz de ler
209
\textit{logs} de diversas fontes --- arquivos, soquetes ou a API do Docker ---,
210
transformá-los por meio de uma linguagem própria de remapeamento e enviá-los a
211
diferentes destinos \citep{vector:2026}.
212

213
A motivação para adotar essa combinação, em vez de uma pilha bastante difundida
214
como Elasticsearch, Logstash e Kibana (ELK) \citep{elastic:2026}, é
215
proporcional ao porte do projeto: o ELK exige múltiplos serviços, e o
216
Elasticsearch é executado sobre a máquina virtual Java; segundo a documentação
217
do VictoriaLogs, soluções como ele demandam consideravelmente mais memória e
218
disco que o VictoriaLogs \citep{victorialogs:2026}. Em um servidor único que
219
também hospeda a API, o PostgreSQL e o Valkey, esse custo seria
220
desproporcional. VictoriaLogs e Vector cumprem o mesmo papel com dois
221
contêineres menores/mais leves.
222

223
No Nexo, o fluxo de \textit{logs} começa na própria API, que utiliza a
224
biblioteca Pino para emitir um objeto JSON por linha, em vez de texto livre
225
\citep{pino:2026}. Como o \textit{logger} só aplica formatação legível quando a
226
saída é um terminal interativo, no contêiner --- onde a saída é um
227
\textit{pipe} --- os registros permanecem em JSON de linha única. O
228
\textit{middleware} \texttt{pino-http} associa a cada requisição um
229
identificador (\texttt{X-Request-Id}), convenção difundida para correlacionar
230
os registros de uma mesma requisição \citep{heroku:2026}, reaproveitando o
231
cabeçalho homônimo quando enviado pelo cliente ou gerando um UUID.
232

233
O Vector lê essas linhas por meio da API do Docker, cujo \textit{socket} é
234
montado no contêiner como volume somente leitura, e aplica uma transformação de
235
remapeamento que tenta interpretar cada mensagem como JSON; quando a
236
interpretação é bem-sucedida, os campos do objeto são elevados ao nível
237
superior do evento, o que torna consultáveis atributos como o nível do
238
\textit{log}, a mensagem e o identificador do usuário. O resultado é enviado em
239
lote ao \textit{endpoint} de ingestão compatível com a API do Elasticsearch do
240
VictoriaLogs, conforme o Código~\ref{lst:vector-pipeline}.
241

242
\begin{lstlisting}[caption={Configuração do \textit{pipeline} de \textit{logs} no \texttt{vector.yaml}}, label={lst:vector-pipeline}]
243
sources:
244
  docker:
245
    type: docker_logs
246

247
transforms:
248
  parse_json_message:
249
    type: remap
250
    inputs: [docker]
251
    source: |
252
      parsed, err = parse_json(.message)
253
      if err == null && is_object(parsed) {
254
        . = merge(., parsed) ?? .
255
      }
256

257
sinks:
258
  victorialogs:
259
    type: elasticsearch
260
    inputs: [parse_json_message]
261
    endpoints: ["http://victorialogs:9428/logs/insert/elasticsearch/"]
262
    mode: bulk
263
    api_version: v8
264
    compression: gzip
265
    request:
266
      headers:
267
        VL-Stream-Fields: label.com.docker.compose.service
268
        VL-Time-Field: timestamp
269
        VL-Msg-Field: msg,message,_msg
270
\end{lstlisting}
271

272
\sourcecode{Elaborado pelo autor (2026)}
273

274
O contêiner do VictoriaLogs é configurado com um período de retenção de 14
275
dias e um teto de 2\,GiB de uso de disco; ambos são limites deliberados para
276
que o armazenamento de \textit{logs} não comprometa o disco da máquina de
277
produção, descartando os registros mais antigos quando qualquer um deles é
278
atingido. O serviço escuta apenas na interface de \textit{loopback}
279
(\texttt{127.0.0.1:9428}), e não em todas as interfaces, de modo que a
280
interface de consulta não é exposta diretamente à internet. O acesso externo
281
se dá pelo Nginx, que publica o caminho \texttt{/logs/} sob autenticação
282
básica HTTP, com credenciais definidas no \textit{vault} criptografado do
283
Ansible; a diretiva \texttt{-http.pathPrefix=/logs} no VictoriaLogs garante
284
que os caminhos gerados pela interface correspondam ao prefixo publicado
285
pelo \textit{proxy}, conforme ilustrado na
286
Figura~\ref{fig:screenshot-victorialogs}.
287

288
\begin{figure}[H]
289
\centering
290
\caption{Interface de consulta do VictoriaLogs com os \textit{logs} da API}
291
\label{fig:screenshot-victorialogs}
292
\includegraphics[width=\linewidth]{screenshot-victorialogs.png}
293
\source{Elaborado pelo autor (2026)}
294
\end{figure}
295

296
Na captura, a consulta está restrita ao fluxo de \textit{logs} da API, por
297
meio do filtro \texttt{label.com.docker.compose.service="api"}. À esquerda,
298
o painel de \textit{stream fields} lista os fluxos disponíveis e o volume de
299
registros de cada um; na parte superior, um histograma mostra a distribuição
300
desses registros em intervalos de 30 minutos ao longo do período
301
selecionado; e, na parte inferior, a tabela exibe as entradas
302
correspondentes, com data, nível e mensagem, incluindo desde a sequência de
303
inicialização da API e de seus \textit{workers} até o envio de notificações.
304
Consultas como essa permitem, por exemplo, correlacionar as linhas de uma
305
mesma requisição a partir do seu \texttt{X-Request-Id}.
306

307
Como o Vector não substitui o \textit{driver} de \textit{logs} do Docker, o
308
\textit{driver} \texttt{json-file} permanece ativo, porém limitado por
309
rotação (10\,MB por arquivo, 3 arquivos por contêiner), de modo que
310
\texttt{docker compose logs} continue funcionando sem que o disco do servidor
311
cresça indefinidamente. As versões das imagens, a retenção e os limites de
312
disco são declarados como variáveis no inventário do Ansible e renderizados
313
no arquivo de ambiente, e o arquivo de configuração do Vector é copiado para
314
o diretório da aplicação pela \textit{role} \texttt{app}, o que mantém a
315
pilha de observabilidade reproduzível pelo mesmo processo de provisionamento
316
descrito na Seção~\ref{sec:deploy-and-ci}.
317

318
\section{Implantação e Desenvolvimento Contínuo} \label{sec:deploy-and-ci}
319

320
Já os termos \textit{implantação} (\textit{deployment}) e
321
\textit{automatização} referem-se ao conjunto de práticas e ferramentas
322
utilizadas para transformar o código-fonte de uma aplicação em um sistema
323
efetivamente disponível e em execução, de forma repetível e com o mínimo de
324
intervenção manual \cite{Humble_Farley_2011}. No caso do Nexo, essa camada é
325
sustentada por três ferramentas complementares. O Docker é utilizado para
326
empacotar a aplicação e suas dependências em contêineres isolados e portáveis,
327
garantindo que o ambiente de execução seja idêntico entre desenvolvimento e
328
produção; o Docker Compose orquestra a execução conjunta de múltiplos
329
contêineres (aplicação, banco de dados, Valkey), definindo suas configurações e
330
interdependências em um único arquivo declarativo. O GitHub Actions é
331
responsável pela integração e entrega contínuas (CI/CD), automatizando
332
etapas como execução de testes e construção de imagens a cada alteração no
333
código. Por fim, o Ansible é utilizado para o provisionamento inicial da
334
infraestrutura, automatizando a configuração do servidor onde a aplicação é
335
hospedada.
336

337
\subsection{Docker e Docker Compose}
338

339
Docker é uma plataforma de conteinerização que permite empacotar uma
340
aplicação e suas dependências em uma unidade isolada e portátil, capaz de ser
341
executada de forma consistente em diferentes ambientes \citep{docker:2026}. O
342
Docker Compose é uma ferramenta complementar que permite definir e orquestrar
343
múltiplos contêineres --- e as relações entre eles --- por meio de um único
344
arquivo de configuração declarativo \citep{dockercompose:2026}.
345

346
No projeto, o Docker Compose é utilizado tanto no ambiente de desenvolvimento
347
quanto no ambiente de produção para orquestrar os serviços de banco de dados
348
(PostgreSQL), armazenamento em memória (Valkey) e da própria API, garantindo
349
que as versões e configurações desses serviços sejam idênticas entre as
350
máquinas de desenvolvimento e o servidor de produção.
351

352
O uso de \textit{healthchecks} em conjunto com a diretiva
353
\texttt{depends\_on} e a condição \texttt{service\_healthy} assegura
354
que a API só seja iniciada após o banco de dados e o Valkey estarem de
355
fato prontos para aceitar conexões, evitando falhas de inicialização
356
por condição de corrida (\textit{race condition}), como ilustrado no
357
Código~\ref{lst:healthcheck-compose}.
358

359
\begin{lstlisting}[caption={Configuração do \textit{healthcheck} do Valkey e de dependência condicional da API no \texttt{docker-compose.yml}}, label={lst:healthcheck-compose}]
360
valkey:
361
  image: valkey/valkey:9.0-alpine
362
  healthcheck:
363
    test: ["CMD", "valkey-cli", "ping"]
364
    interval: 10s
365
    timeout: 5s
366
    retries: 5
367
    start_period: 5s
368

369
api:
370
  build: ./api
371
  depends_on:
372
    valkey:
373
      condition: service_healthy
374
    db:
375
      condition: service_healthy
376
\end{lstlisting}
377

378
\sourcecode{Elaborado pelo autor (2026)}
379

380
A adoção do Docker se justifica, no contexto de uma aplicação de saúde
381
mental de código aberto, pelo objetivo de garantir a reprodutibilidade do
382
ambiente de execução: qualquer pessoa que clone o repositório --- seja para
383
contribuir com o projeto, auditar seu funcionamento ou realizar sua própria
384
implantação --- consegue reproduzir o ambiente completo sem depender de
385
configurações manuais específicas do sistema operacional hospedeiro, o que
386
reforça o caráter \textit{self-service} do projeto.
387

388
\subsection{GitHub Actions}
389

390
GitHub Actions é uma plataforma de integração e entrega contínuas (CI/CD)
391
nativa do GitHub, que permite a definição de fluxos de trabalho automatizados
392
--- disparados por eventos como \textit{push} ou \textit{pull request} ---
393
descritos de forma declarativa em arquivos YAML \citep{githubactions:2026}.
394

395
No projeto, o fluxo de trabalho de CI/CD é dividido em três etapas
396
sequenciais e dependentes entre si. A primeira etapa (\texttt{test}) sobe um
397
serviço efêmero de PostgreSQL e executa a suíte de testes automatizados da
398
API a cada \textit{push} ou \textit{pull request} que modifique arquivos do
399
diretório da API.
400

401
A segunda etapa (\texttt{build-and-push}), condicionada ao
402
sucesso da primeira e restrita a eventos de \textit{push}, constrói a imagem
403
Docker de produção da API e a publica no GitHub Container Registry (GHCR),
404
com marcação automática pelo SHA do \textit{commit} e, condicionalmente, pela
405
tag \texttt{latest} quando o \textit{push} ocorre na \textit{branch}
406
\texttt{master}.
407

408
Por último, a terceira etapa (\texttt{deploy-production}), restrita à
409
\textit{branch} \texttt{master}, conecta-se ao servidor de produção via SSH e
410
realiza a atualização do serviço da API por meio da atualização da tag da
411
imagem no arquivo \texttt{.env} e da recriação do contêiner correspondente
412
via Docker Compose.
413

414
Esse processo elimina a necessidade de intervenção manual para a maior
415
parte do ciclo de implantação, restringindo a ação humana direta sobre o
416
servidor de produção a situações excepcionais, o que reduz a superfície de
417
erro humano e aumenta a confiabilidade do processo de entrega de novas
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versões da aplicação.
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420
\subsection{Ansible}
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Ansible é uma ferramenta de automação de infraestrutura que permite
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descrever, de forma declarativa e idempotente, o estado desejado de um ou
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mais servidores, dispensando a necessidade de um agente instalado na máquina
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gerenciada, uma vez que se comunica com ela via SSH \citep{ansible:2026}.
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No escopo deste projeto, o papel do Ansible é ortogonal ao do Docker Compose
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e ao do GitHub Actions: enquanto estes automatizam, respectivamente, a
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orquestração dos serviços da aplicação e o ciclo de integração e entrega
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contínuas, o Ansible é responsável exclusivamente pelo provisionamento
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inicial do servidor de produção, executado uma única vez --- ou sempre que um
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novo servidor precisar ser provisionado. Esse provisionamento consiste em:
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(1) criar o usuário dedicado à aplicação; (2) adicionar a chave pública SSH
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utilizada pelo GitHub Actions para se autenticar no servidor durante a etapa
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de implantação; (3) criar os diretórios da aplicação com as permissões
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adequadas; e (4) instalar o Docker no servidor. A cópia do arquivo de
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variáveis de ambiente de produção (\texttt{.env.production}), por conter
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segredos e credenciais sensíveis, é deliberadamente mantida como uma etapa
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manual, não automatizada, e não é versionada no repositório.
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A separação entre o provisionamento inicial (\textit{Ansible}), a orquestração de
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execução (\textit{Docker Compose}) e a automação do ciclo de
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entrega (\textit{GitHub Actions}) reflete uma decisão arquitetural:
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cada ferramenta atua em uma camada distinta e bem delimitada do processo
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de implantação, o que favorece a reprodutibilidade de todo o processo,
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do zero, por qualquer pessoa que deseje hospedar sua própria instância da aplicação.
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Essa preocupação é particularmente relevante no contexto de um
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aplicativo de saúde mental de código aberto: ao reduzir a dependência
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de serviços proprietários de implantação (\textit{walled gardens}) e
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ao documentar e automatizar o processo de provisionamento, o projeto
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favorece um modelo mais alinhado aos princípios de privacidade e de
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autonomia sobre os dados dos usuários, permitindo que instituições ou
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indivíduos preocupados com a confidencialidade de dados sensíveis de
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saúde mental hospedem e controlem sua própria instância da aplicação.